O município de Campo Mourão foi atingido por mais de 3 mil raios, de janeiro até o início dessa semana. Para se ter uma ideia, é uma quantidade muito superior ao número de descargas elétricas registradas em todo o ano de 2011, que encerrou com 2.430 ocorrências. O balanço foi feito pelo Simepar, através da Rede Integrada Nacional de Detecção de Descargas Atmosféricas (RINDAT). Os raios são provocados pela presença de grandes concentrações de cargas elétricas existentes em diferentes partes das nuvens de tempestade. “Quando essas concentrações de cargas elétricas são muito fortes elas permitem a formação de descargas elétricas que vão buscar a conexão com a superfície da Terra, normalmente em árvores, torres altas, picos de montanhas, formando então os raios que conhecemos”, explica o meteorologista Marco Antonio Rodrigues Jusevicius, que trabalho especificamente com descargas atmosféricas desde 2005.
| Nelson Cerqueira |
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| Este ano, CM foi atingido por mais de 3 mil raios |
Já na região, o município de Luiziana, que possui área territorial maior que Campo Mourão (confira os dados na tabela abaixo), computou números ainda mais elevados: foram 4.030 nesse ano, contra 2.963, em 2010, e 3.092, registrados em 2012. As principais conseqüências dos raios são danos em sistemas elétricos, em árvores e edificações não protegidas por pára-raios. “Temos também acidentes com pessoas e animais em áreas desprotegidas (como campos abertos, praias, clubes) onde os seres vivos estão expostos diretamente ao fenômeno, podendo ser diretamente atingidos por um raio ou então ser atingido indiretamente por seus efeitos. Nesses casos os efeitos podem ser de pequena monta, desde desmaios ou perda momentânea de memória, como casos mais graves que são problemas neurológicos mais sérios, perda parcial ou total de movimentos e mesmo o óbito”, diz Rodrigues.
O agricultor da comunidade rural Alto Alegre, Mauro Damásio, 53 anos, conta que o local parece ser perseguido pelo fenômeno. Até a casa em que ele mora já foi alvo de uma descarga elétrica, que teve como conseqüência a morte de um pedreiro, há pelo menos 20 anos. “Como nasci em Alto Alegre, me lembro bem desse fato. O morador sempre reunia os amigos para jogar truco aos domingos à tarde, e nesse dia chovia muito, inclusive caia muitos raios. Ele então foi até a televisão para tirar o cabo da tomada, quando recebeu um choque. Seus amigos ainda tentaram reanimá-lo, mas ele morreu ali mesmo”, conta Damásio.
Moradores dessa comunidade também já perderam várias cabeças de gado em dias de chuva, por conta dos raios. “Dá medo de morar aqui. Quando começa a chover muito, a gente evita tocar em objetos como talheres, fazer uso de celular e assistir televisão. Se estou na roça fico em cima do trator, pois dizem que os pneus de borracha protegem. Embaixo de árvore eu nunca entro”, comenta ele. Além disso, os moradores colecionam prejuízos com aparelhos eletrônicos em dias de tempestade: “Se deixar aparelhos na tomada, como televisão, rádio, computador, e outros aparelhos, queima mesmo. Portão eletrônico nem compensa colocar por aqui. Os moradores nem vão procurar mais a Copel para cobrar ressarcimento.”
| Clodoaldo Bonete/Tribuna do Interior |
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| Em situações de tempestade, é importante sempre buscar abrigo seguro |
Para ele, uma das possíveis causas são os para-raios que teriam sido abalados ou removidos por máquinas agrícolas nos últimos anos. “A Copel informou que esse pode ser o motivo. Nos últimos dois anos foram colocados mais para-raios e o problema parece ter sido amenizado”, completa. Mesmo assim ele não acredita na tese de que raio não cai duas vezes no mesmo lugar: “Por aqui é bem possível que cai”, brinca.
Mesmo diante desse quadro, o meteorologista explica que não dá para afirmar, ou mesmo especular que a atividade de raios está aumentando na área com base apenas nesses números e período. “Para fazer essa afirmação de maneira séria e científica, há que estudar mais e verificar outras informações que possam embasar essa hipótese.”
O que justifica o aumento de raios
- Modernização e melhorias no sistema de detecção de raios no Paraná: O Simepar está investindo na aquisição de novas antenas e modernizando o sistema, o que leva a uma maior sensibilidade do sistema nesta área. Há também investimento da Eletrobras FURNAS em melhoria do sistema de antenas. fazendo com que a área ficasse muito melhor coberta (processo ocorrido no decorrer dos últimos 3 anos).
- Esse verão tivemos maior atividade de tempestades elétricas nessa região e, no Paraná como um todo. Foi a maior incidência acumulada nos três primeiros meses do ano deste período (2010-2013).
- Nesta época temos também uma parte significativa das descargas atmosféricas que incidem na área durante o ano todo. A quantidade costuma cair drasticamente no mês de abril, voltando a aumentar de maneira objetiva nos meses de outubro e novembro.
Como as pessoas devem se precaver
Para as pessoas: sempre buscar abrigo seguro em situações de tempestade. Ao primeiro sinal de tempestades com raios, elas devem abandonar imediatamente áreas desprotegidas como parques, praias, piscinas, quiosques abertos, campos de prática de esportes a céu aberto, áreas de plantação e outras assemelhadas. Isso vale se também estiver dirigindo motocicletas, bicicletas, tratores e outros veículos sem capotas. Buscar abrigo relativo ao ambiente externo em casas de alvenaria ou então no interior de veículos com capota e com as janelas fechadas. Nunca buscar abrigo embaixo de árvores. Não utilizar telefones com fio durante as tempestades e ficar afastado da parte hidráulica e elétrica da casa. Telefones celulares (desconectados de seu carregador na tomada) e telefones sem-fio fora das bases podem ser utilizados. Existe uma regra simples que é ensinada nas escolas americanas para saber os momentos adequados de abandono de áreas e de retorno seguro para as atividades suspensas. Ela é conhecida como regra 30-30, que é: Se você visualizar um raio e, em menos de 30 SEGUNDOS ouvir o trovão, abandone imediatamente a sua atividade em área desprotegida e busque um local seguro. Somente após 30 MINUTOS após ouvir o último trovão, a situação está novamente tranquila e é possível retornar para a atividade que foi suspensa. No caso de edificações: instalar equipamentos de proteção contra descargas atmosféricas (para-raios). Equipamentos elétricos ou eletrônicos: instalar protetores contra surtos nestes equipamentos ou então desligá-los da tomada em caso de tempestade com raios.
Reportagens do Jornal Tribuna do Interior Campo Mourão ( todo mérito)